Sobre Estatísticas e Bêbados
novembro 9, 2011
Assistindo aos principais telejornais nos últimos dias, percebo que há uma espécie de “caça às bruxas”, colocando a culpa pelo aumento das estatísticas de morte no trânsito em motoristas supostamente embriagados.
Acontece que eu sou desconfiado, trabalho de carro todos os dias no Rio, e também sei um pouco de matemática. O que me levou a uma reflexão sobre as reais causas destes aumentos, e o perigo de colocar a culpa nos bêbados.
Em primeiro lugar, gostaria de dizer que sou radicalmente contra dirigir sob efeito de álcool ou qualquer tipo de droga. Trânsito é coisa séria, e carro é uma arma. Motoristas dirigindo sob efeito de álcool deveriam ser punidos exemplarmente, causando acidentes ou não.
Agora vamos aos números e às manipulações da imprensa sensacionalista.
O físico Leonard Mlodinow, em seu excelente livro “O Andar do Bêbado”, mostra de uma maneira muito divertida, como eventos que achamos serem controlados e previsíveis são na verdade governados pela aleatoriedade. E também nos conta causos ao longo do livro para mostrar como o uso errado das estatísticas pode produzir resultados desastrosos.
As notícias recentes batem firme na ideia de há uma relação de causa e efeito entre bêbados no volante e o aumento vertiginoso dos acidentes e mortes no trânsito.
Acontece que não há. Vejamos.
Segundo a Fenabrave (Federação Nacional da Distribução de Veículos Automotores), nos últimos 3 anos vivemos um aumento vertiginoso nas vendas de veículos. Para se ter uma ideia, 2010 teve um aumento de 12,42% por cento em relação ao ano anterior. E o atual ano de 2011, apesar de não ter terminado (estou escrevendo este artigo em novembro), e de estarmos passando por cenários de instabilidade na economia no mundo, já superou as vendas de 2010.
Ano após ano, as montadoras estão batendo recordes de vendas de veículos. Crédito fácil, poder aquisitivo aumentando, economia favorável. Pessoas que nunca tiveram carro, hoje estão dirigindo seu próprio zero km.
Ora, qualquer pessoa com pouco de cérebro pode deduzir que: mais carros nas ruas significa potencial para mais acidentes. Certo?
A menos que campanhas de prevenção, investimentos em sinalização, melhoria nas condições das vias e punições severas aos infratores sejam aplicadas. Mas será que isso acontece por aqui?
Operações Lei Seca foram implantadas no Rio, assim como em outras capitais. Segundo números da Operação Lei Seca retirados do próprio portal do governo, foram 98.243 multados e 25.412 rebocados por problemas com documentação e com o licenciamento do veículo. E os bêbados? Ah, 4.842 sofreram sansões administrativas por estarem embriagados. Percebe o disparate nos números?
Não é estranho que uma blitz para pegar bêbados coloque um balão iluminado a vários metros de altura? Não é estranho que uma blitz para pegar bêbados pegue tão poucos bêbados? Em mais de 2 anos operação (29 meses), dá uma média de 166 bêbados por mês, e incríveis 877 (5 vezes mais) carros rebocados por problemas com licenciamento e IPVA.
Será que é realmente pra pegar motoristas bêbados que serve a Operação Lei Seca?
Um outro ponto é punição para infratores de trânsito. Não existem casos de pessoas presas no Brasil por atropelamento ou por mortes no trânsito. Se você quiser matar alguém, não use um revolver, use um carro! A punição para assassinos de trânsito é quase nenhuma, e o crime ainda prescreve em 5 anos. Que maravilha, não? Porquê o legislativo não muda as leis, impondo punições severas e reais para assassinos de trânsito?
Uma outra questão interessante é a dos itens de segurança nos carros e como o governo brasileiro lida com isso. O carro chinês Effa M100 por exemplo, proibido de ser vendido na Europa por apresentar sérios problemas com a segurança, foi liberado aqui no Brasil (!!). Veja aqui o teste da 4 Rodas mostrando as falhas no carro.
Porquê o governo brasileiro não torna obrigatório itens como freio com ABS e air bag duplo? Poderia por exemplo retirar os impostos destes itens para que as montadoras pudessem colocar nos carros sem trazer custos adicionais ao consumidor. Ao invés disso libera carros aqui que apresentam problemas técnicos de segurança. Será que o governo está realmente preocupado em ter uma frota de carros seguros rodando no país?
Na Europa e nos EUA, freios com ABS e air bags não são itens opcionais. São obrigatórios. E partir de 2012 o controle de estabilidade (ESP) será obrigatório por lá – aqui no Brasil só carros de luxo tem isto. Percebe a diferença de atitude dos governos daqui e de lá?
Por isso, é perigoso estabelecer uma relação de causa e efeito entre motoristas bêbados e o aumento do número de acidentes no trânsito. Esta informação colabora para esconder os reais problemas que estão por trás dos aumentos destes números.
É preciso ter senso crítico, cobrando dos governantes medidas concretas para melhorar a segurança, e não “operações circo”, para ganhar capas de jornais.